
Não se trata de mais um livro, e sim, do prefácio escrito pelo editor Leandro Luigi Del Manto (que não tem nada a ver com a capa acima, que foi utilizada aqui somente para fornecer a ilustração para a matéria!).
Tal como a edição recentemente lançada pela Devir, que é primorosa, o texto do Leandro, para esta publicação, também é uma pérola, e por isso mesmo, tomei a liberdade de reproduzi-lo aqui. Divirtam-se com detalhes sobre o Agente Secreto X-9!
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OS SEGREDOS DO X-9
Embora hoje em dia “X-9” seja mais lembrado como um jargão policial para “dedo-duro” ou o nome de uma famosa escola de Samba, a verdade é que ele também já foi sinônimo de aventura, ação, mistério e uma das séries de quadrinhos mais cultuadas de todos os tempos!
Não vem ao caso discutir aqui de quem é o mérito da criação das Histórias em Quadrinhos. Uma coisa, entretanto, ninguém pode negar: foi graças às tiras dos jornais diários americanos que a arte sequencial atravessou continentes e conquistou fãs de todas as idades e culturas. E a década de 1930 foi decisiva para as HQs. Neste período surgiram os personagens que iriam determinar o rumo dos quadrinhos em todo o globo.
O mundo naqueles dias era muito diferente do que este que conhecemos hoje. Basta lembrar que não existia televisão e ninguém havia sequer sonhado com algo parecido com a internet. Você consegue se imaginar num mundo onde não é possível acessar seus e-mails ou assistir a um noticiário na TV? Difícil, não?
Nos anos 30, o rádio, o cinema e os jornais eram a trindade suprema de entretenimento e informação. As famílias se reuniam em volta do aparelho de rádio para acompanhar as intermináveis novelas e os programas de música, enquanto os jornais eram disputados afoitamente pelos leitores. O cinema atraía pessoas de todas as idades e divertia multidões de garotos que acompanhavam os seriados cheios de ação e mistério nas matinês.
O que existia de mais próximo do que são as nossas revistas em quadrinhos de hoje eram os pulps, aquelas publicações baratas impressas em papel vagabundo e que traziam histórias de todos os gêneros para todo tipo de leitor. Embora a primeira revista em quadrinhos geralmente seja citada pelos historiadores como sendo Famous Funnies: A Carnival of Comics, em 1933, os quadrinhos existiam verdadeiramente na sua concepção original: nas tiras diárias e nas páginas dominicais dos jornais. O advento da revista em quadrinhos começaria a mudar definitivamente esse cenário a partir do final dos anos 30, com o surgimento dos super-heróis. Até então, eram muito comuns as compilações de tiras na forma de revistas. Mas o meu interesse agora está no início daquela década, mais propriamente nas dinâmicas e violentas tiras do popular personagem criado por Chester Gould chamado Dick Tracy, que fez sua estreia em 4 de outubro de 1931, no jornal Detroit Mirror. A tira era distribuída pela Chicago Tribune New York News Syndicate. E este último detalhe foi o responsável pelo surgimento de X-9.
O grande magnata da imprensa americana, William Randolph Hearst, dono de um verdadeiro império jornalístico e da King Features Syndicate, não gostou nem um pouco quando Dick Tracy caiu no gosto do público. A tira, afinal de contas, era distribuída por uma empresa concorrente. Mas Hearst sabia muito bem como jogar pesado e decidiu que seus jornais precisavam de um novo sucesso para atrair os leitores. Assim sendo, ele mandou que contratassem um dos escritores de mistério mais lidos do momento: Dashiell Hammett.
No auge da fama conquistada com o livro (e sua adaptação para o cinema) O Falcão Maltês, Hammett queria curtir o que a vida pudesse lhe oferecer de melhor. Bon vivant, ele bebia e fumava demais em divertidas festas noites adentro. Escrever uma tira diária de quadrinhos não parecia estar dentro de suas prioridades, mas a promessa de um cheque de 500 dólares por semana no início dos anos 30 era algo irrecusável. E como Hammett quase sempre estava sem dinheiro, pois gastava tudo o que ganhava nas suas comentadas festas, ele aceitou escrever a nova série de tiras, que começaria a ser veiculada a partir de janeiro de 1934. Agora só faltava encontrar um desenhista para a futura tira.
A King Features testou vários de seus ilustradores, mas Hearst não havia gostado de nenhum. Coincidentemente, um jovem artista chamado Alex Raymond, que havia trabalhado como assistente de arte de outros desenhistas de tiras para a King, acabara de fechar contrato com a empresa para uma série dominical de ficção científica de sua autoria chamada Flash Gordon, que poderia fazer frente à bem-sucedida tira concorrente Buck Rogers, de Philip Francis Nowlan. Hearst gostou do trabalho do rapaz e o escolheu como o ilustrador da nova tira a ser escrita por Hammett.
Paralelamente a isso tudo, Raymond fechara mais um contrato com a empresa para a publicação de outra série dominical, Jim das Selvas, que poderia atrair os leitores do popular Tarzan. Assim, o jovem Raymond tinha um cronograma de trabalho exaustivo, mas sua energia e entusiasmo eram os ingredientes de qualquer artista que quisesse vencer nos anos 30.
Hearst queria que a nova tira trouxesse uma mescla de elementos de Dick Tracy e Dan Dunn, de Norman Marsh. Hammett inseriu elementos de personagens seus, como Sam Spade e Continental Op, para moldar a personalidade durona de X-9. Raymond, que ficaria famoso por seus personagens bem vestidos e mulheres fatais, providenciou rápidos estudos para que a King Features pudesse divulgar o próximo grande sucesso. Foi feita uma enorme campanha promocional nos jornais de todo o país, utilizando slogans do tipo “Nunca houve um detetive como X-9”, ou “Ele enfrenta a esperteza dos malfeitores com sua excepcional inteligência… combate fogo com fogo!” E é claro que capitalizaram muito bem o nome e a fama de Hammett, divulgando-o como o maior escritor de histórias policiais do século XX: “O mais popular e vendável autor da atualidade!”
Então, no dia 22 de janeiro de 1934, Agente Secreto X-9 finalmente estreou e, como era de se esperar de qualquer história de Hammett, os leitores foram arremessados diretamente para a ação, sem mais delongas. O estilo “classudo” e dinâmico de Raymond combinou perfeitamente com a narrativa do escritor e pode-se dizer que a série começou com o “pé direito”. No entanto, com o passar das semanas, os leitores começaram a se sentir meio perdidos em meio à trama complexa desenvolvida por Hammett, que parecia estar se divertindo em escrever o roteiro, que refletia bastante o que ele já havia feito em seus outros livros de sucesso. Na verdade, os leitores das tiras de jornais estavam mais acostumados a histórias curtas e simples, sem muitos requintes literários. E a primeira aventura de X-9 se estendeu por mais de sete meses!
Diante disso, os editores da King Features começaram a fazer pequenas alterações nos textos de Hammett para deixá-los mais “fáceis” e passaram a interferir no desenrolar das histórias. Talvez por causa disso, Hammett foi perdendo o interesse em escrever as tiras e passou a atrasar cada vez mais a entrega das mesmas. Quem acabava se prejudicando com isso era Raymond, que, muitas vezes, era obrigado a desenhar as tiras rapidamente. Esse desgaste foi se acentuando até que a King Features resolveu demitir Hammett como escritor, passando esta tarefa temporariamente para Raymond até que encontrassem um substituto. Hammett não saiu prejudicado, pois acabara de vender os direitos de adaptação do seu livro O Homem Magro (batizado aqui em sua versão cinematográfica como A Ceia dos Acusados) para a MGM, que também encomendara a ele uma continuação. Assim, a história “O Caso Martyn” foi a última a ter a participação dele como escritor. A história “O Caso do Carro em Chamas” foi baseada, em parte, nas anotações de Hammett, mas o texto final ficou sob responsabilidade de Raymond e dos editores da King Features.
Alex Raymond, que já estava sobrecarregado com a produção de Flash Gordon e Jim das Selvas, se viu num beco sem saída ao assumir também os roteiros de X-9. Assim, a King foi obrigada a contratar o artista Austin Briggs para ajudar a desenhar a tira. Você poderá ver a diferença na arte das primeiras semanas da história “O Caso da Garra de Ferro”. No entanto, apesar de todo o empenho de Raymond, a grande verdade era que ele gostava muito mais de desenhar Flash Gordon, que se tornara um sucesso absoluto, e Jim das Selvas. Além do mais, ambas eram legítimas criações suas. Assim, ele continuou na tira até novembro de 1935, com a história “O Organizador”, escrita pelo competente Leslie Charteris, o criador de Simon Templar, mais conhecido como O Santo.
X-9 acabou não conseguindo fazer frente ao sucesso cada vez maior de Dick Tracy. Mesmo assim, ninguém pode dizer que a série não caiu no gosto dos leitores. Em 1937, foi feita uma adaptação para o cinema na forma de um seriado, no qual o herói investigativo foi interpretado por Scott Kolk (do clássico Nada de Novo no Front, de 1930) e tinha uma ajudante chamada Shara Graustark, interpretada pela atriz Jean Rogers (a mesma que deu vida à Dale Arden nos dois primeiros seriados de Flash Gordon). Depois, em 1945, o personagem ganhou outra adaptação na forma de seriado, desta vez interpretado por Lloyd Bridges, que ficaria mundialmente famoso anos depois com a série de TV Aventura Submarina. Unindo forças com agentes australianos e chineses, X-9 combatia a ameaça de nazistas e japoneses.
As tiras de jornais passaram pelas mãos de Charles Flanders em 1937; Mel Graff (que deu o nome Phil Corrigan ao X-9 e fortaleceu a personalidade do herói inserindo interesses amorosos na vida dele), de 1939 a 1960; Bob Lubbers (sob o pseudônimo de Bob Lewis), de 1960 a 1966; Archie Goodwin (texto) e Al Williamson (arte), de 1967 a 1980; e George Evans, que escreveu e desenhou as aventuras do misterioso detetive de 1980 até seu encerramento em10 de fevereiro de 1996.
No Brasil, o X-9 também acabou entrando na história do Carnaval. Fundada na cidade de Santos em 10 de maio de 1944, a GRES X-9 ganhou esse nome por causa do personagem de quadrinhos. A escola de samba foi a que mais conquistou prêmios na cidade litorânea e acabou inspirando a criação da GRCES X-9, na Zona Norte de São Paulo, em 12 de fevereiro de 1975. Ambas continuam fazendo a alegria dos foliões paulistas!
Mais recentemente, tornou-se muito popular no Rio de Janeiro o termo “X-9”, que, no jargão policial, significa “dedo-duro”, delator, algo que o personagem de quadrinhos definitivamente não é. Seja como for, o que você verá nas páginas deste livro é o mais fiel retrato de um herói durão e implacável, um verdadeiro sobrevivente da década de 1930. Um herói forjado com a perspicácia de Dashiell Hammett e o requinte de Alex Raymond.
Boa leitura!
Leandro Luigi Del Manto
Editor

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